Por Écio Souza Diniz
Poucas bandas do metal brasileiro carregam um legado tão particular quanto a Dorsal Atlântica. Surgida ainda nos primórdios do metal nacional, a banda liderada por Carlos Lopes ajudou a moldar não apenas uma identidade sonora agressiva e autoral para o underground brasileiro, mas também uma postura crítica e inquieta rara dentro da nossa música pesada. Em meio às turbulências políticas, sociais e culturais das décadas de 1980 e 1990, a Dorsal construiu uma discografia marcando trilhas sonoras para guerra, alienação, violência, religião e desigualdade social, sempre tratando esses temas com personalidade própria, o que ironicamente faz paralelo novamente com a realidade de ambos o Brasil atual como o resto do mundo em grande parte. Talvez seja justamente por tal postura unida à perseverança e audácia criativa que a obra da banda continue ecoando muito além da música.
O livro “Dorsal Atlântica: uma expedição literária ao dorso do heavy metal brasileiro”, organizado por Leonardo Triandopolis Vieira e Fabio Shiva, endossa a força conceitual típica das letras da Dorsal para propor algo incomum: transformar canções da Dorsal em literatura. Reunindo diferentes autores inspirados em músicas da banda, o livro não tenta apenas revisitar sua trajetória, mas expandir em forma de contos o universo criado por Carlos Lopes ao longo de décadas de resistência, experimentação e inconformismo artístico. O próprio Carlos selecionou as faixas que serviram de inspiração e também criou ilustrações exclusivas para cada conto.
O resultado dessa empreitada? Uma agradável viagem literária na qual os diferentes autores, com suas trajetórias particulares, conseguiram adicionar texturas e camadas próprias e interessantes a cada música selecionada, explorando de formas únicas as atmosferas, conflitos, simbolismos e temas presentes nas letras da banda. Esse mosaico literário heterogêneo, mas coerente em espírito, dialoga diretamente com o caráter inquieto, crítico e frequentemente sombrio da Dorsal. Além disso, é interessante notar também entre os autores dos contos das músicas a presença de profissionais importantes no cenário nacional, de músicos a produtores e donos de selos e lojas, que não tinham experiência registrada em escrita de livros ou similares, mas que descobriram essa faceta como mais uma habilidade pessoal.
Naturalmente, como toda antologia com múltiplos autores, há diferenças de estilo, ritmo e impacto entre os contos. Alguns textos funcionam melhor ao capturar a agressividade e a tensão emocional das músicas originais; outros assumem caminhos mais introspectivos ou experimentais. Ainda assim, essa diversidade acaba contribuindo para o próprio espírito do projeto: uma expedição literária por múltiplas interpretações do universo dorsalino.
Outro mérito importante da coletânea é percorrer diferentes fases da carreira da banda, abrangendo desde o “Ultimatum” (1985) até “Pandemia” (2021), ajudando a mostrar a amplitude estética e temática construída por Carlos Lopes ao longo dos anos. Mais do que nostalgia, o livro reforça a atualidade e relevância da Dorsal Atlântica dentro da cultura underground brasileira. Portanto, o livro não apenas celebra uma banda fundamental, mas também demonstra como o heavy metal brasileiro pode transcender o disco, o palco e a memória histórica, tornando-se literatura, imaginação e permanência cultural.
Contos presentes no livro:
01 - IMPÉRIO DE SATÃ (Ultimatum) - Caco Garcia
02 - DEPRESSÃO SUICIDA (Antes do Fim) - Márcio Paixão Jr.
03 - GUERRILHA (Antes do Fim) - Fabio Shiva
04 - INVEJA (Antes do Fim) - Leonardo Triandopolis Vieira
05 - VIOLÊNCIA É REAL (Dividir e Conquistar) - Thais Brayner
06 - MORADOR DAS RUAS (Dividir e Conquistar) - Vinicius Vertigem
07 - VELHICE (Dividir e Conquistar) - Cristiano dos Passos
08 - HIERARCHIC DEMOCRACY (Searching For The Light) - Luciano Cirne
09 - FIGHTING IN GANGS (Searching For The Light) - Eliton Tomasi
10 - ROCK IS DEAD (Musical Guide From Stellium) - Mana Mendonça
11 - MY GENERATION (Musical Guide From Stellium) - Fabiano Calixto
12 - THY KINGDOM COME (Alea Jacta Est) - Luísa Novaes
13 - BLACK MESSIAH (Alea Jacta Est) - Luiz Cesar Pimentel
14 - STRAIGHT (Straight) - Wilfred Gadêlha
15 - DOR (Straight) - Ciberpajé
16 - STALINGRADO (2012) - Railine Guedes
17 - A INVASÃO DO BRASIL (2012) - Rogério Bigbross
18 - COMISSÃO DA VERDADE (2012) - Fausto Mucin
19 - IMPERIUM (Imperium) - Susy Ramone
20 - DEUS QUE DANÇA (Imperium) - Paulo-Roberto Andel
21 - BELO MONTE (Canudos) - Daniel Dutra
22 - LIBERDADE (Canudos) - Antonio Carlos Monteiro
23 - PANDEMIA (Pandemia) - Ana Trettel
24 - INFECTADOS (Pandemia) - Lelo Reinoso
Para adquirir o livro acesse o link
