DRUMS OF WAR - Barcleona (Espanha) - cobertura

Por Écio Souza Diniz

A primeira edição do festival Drums of War, ocorrida em Barcelona (Espanha) entre os dias 27 a 29 de agosto de 2026, marcou um novo capítulo para o metal extremo no país. O festival teve lotação esgotada com um público fiel para ver nomes de peso como Destruction, 1349, Impaled Nazarene, Nargaroth, Onslaught, Pestilence, Tormentor e Unleashed, além de Aeternus, Grave, Impiety, Kampfar, Messiah, Vinterland, entre outros. O PÓLVORA ZINE acompanhou os três dias do evento e relata aqui os principais destaques.

 27 de agosto

 O festival ocorreu num espaço chamado Atlantic Sound, uma discoteca e local de shows na Zona Franca de Barcelona, área industrial que combina pavilhões de eventos corporativos com polos de entretenimento noturno.

A primeira banda que assisti ao chegar foi a grega Zemial, que me inaugurou bem a jornada com um repertório passou pelos álbuns da banda e ainda trouxe o EP mais recente, To Slay with Silent Dagger (2022). Em seguida, direto de Singapura, o Impiety despejou agressividade com músicas de diferentes fases da carreira, tendo como o ponto alto do show a música Bestial Genocide Goatvomit

Na sequência, o clima atmosférico e melancólico dos noruegueses do In The Woods…. entrou em cena com um repertório mais focado no álbum mais recente, Otra (2025), do qual tocaram ótimos sons como The Crimson Crown e The Things You Shouldn't Know, Come Ye Sinners e Let Me Sing. Todavia, foi com The Coward’s Way (de Diversum, 2002) que ganharam o público.

            Agora era hora dos veteranos suíços do Messiah, que deram um excelente show que faz parte de turnê que está celebrando os 35 anos de Choir of Horrors (1991), um clássico do death/thrash europeu. Desse álbum tivemos a satisfação de ver ao vivo faixas como Akasha Chronicle, Lycantropus Erectus e Cautio Criminalis. Outros pontos altos foram com as excelentes Living With a Confidence (de Rotten Perish, 1992) e Messiah (de Hymn to Abramelin, 1986).

            Para fechar esse primeiro dia da jornada, os alemães do Nargaroth dominaram o recinto com seu black metal frio e ríspido. Com um desempenho de palco de alto nível e uma aura transbordando agressividade e misantropia, a banda executou um setlist que passou por diferentes momentos da discografia, com destaque para Steel Apocalypse, The Day Burzum Killed Mayhem, Metalheart, I Burn for You, Possessed by Black Fucking Metal e Seven Tears Are Flowing to the River. Para coroar, ainda tocaram um cover de Dead Embryonic Cells, do Sepultura, cantado em alto por todos.

28 de agosto

 Nesse segundo dia aproveitei uma meia hora após chegar para conversar com músicos, público, donos de selo e colegas de outras mídias outras, para então ir ver aos holandeses do Pestilence, nome fundamental do death metal técnico. O líder Patrick Mameli continua afiadíssimo nos riffs e no vocal, e a atuação do guitarrista Max Blok também merece destaque. As músicas tocadas foram focadas nos álbuns Mallevs Maleficarvm (1988), Consuming Impulse (1989) e principalmente em Testimony of the Ancients (1991).

Da brutalidade do death metal fomos para a frieza do pagan black metal dos noruegueses do Kampfar, que proporcionaram um dos melhores shows desse segundo dia, amparado pelos efeitos estratégicos de luzes azuis e fumaça do palco. O ponto mais alto foi durante a música Skogens Dyp (do álbum Heimgang, 2008). Dando seguimento nessa atmosfera gélida escandinava, os suecos do Vinterland realizaram um dos shows que mais apreciei nesse dia — lembrando que este foi primeiro show da banda na Espanha. Além disso, foi um show especial focado em celebrar os 30 anos de Welcome To My Last Chapter (1996), um dos alicerces do melodic black metal.

Já em seguida, entrou no palco um dos nomes mais esperados do dia que despertava curiosidade em muitos dos presentes: os húngaros do Tormentor. Essa banda é uma lenda viva que não só foi fundamental para ajudar a criar a primeira onda do black metal, como também influenciou diretamente grandes nomes da cena norueguesa como Mayhem, Darkthrone e Emperor. Inclusive, foi do Tormentor que veio o vocalista Attila Csihar, o qual depois iria ficar mundialmente conhecido ao assumir os vocais do renomado De Mysteriis Dom Sathanas (1994) do Mayhem. Nesse show, Attila Csihar, acompanhado pelos velhos companheiros Attila Szigeti (guitarra), György Farkas (baixo) e Machat St. Zsoltar mostraram ao público local o porquê da sua justa merecida importância ao tocarem relíquias do metal extremo como Elisabeth Bathory, In Gate of Hell e Transylvania da lendária demo Anno Domini (1989) e Mephisto da demo The 7th Day of the Doom (1987).

De volta ao death metal, os suecos do Grave também tiveram uma ótima performance, apesar de alguns problemas técnicos que atrasaram o início do show. O repertório tocado foi baseado nos melhores álbuns da banda: Eroded (1991), You'll Never See… (1992) e …And Here I Die… Satisfied (1993). Melhor show deles que já vi inclusive.

O encerramento ficou a cargo dos veteranos ingleses do Onslaught. Esse excelente show focou nas músicas dos clássicos Power From Hell (1985) e The Force (1986). Como foi legal ver ao vivo clássicos Onslaught (Power From Hell), Angels of Death, Metal Forces e Death Metal na voz do vocalista Sy Keeler.

29 de agosto

 Último chegou, mas nem por isso foi tranquilo, pois a sequencia de shows brutais não deu descanso. Primeiro, vieram os suecos do Hellbutcher – grupo formado das cinzas do Nifelheim pelo vocalista Hellbutcher (Per Ola Arne Gustafsson). Com seu black/speed metal avassalador e sem frescura, o show focou no primeiro e ainda único álbum, Hellbutcher (2024), do qual faixas como Violent Destruction, Death's Rider e Possessed by the Devil's Flames e Satan's Power mostraram seu poder destrutivo ao vivo.

A próxima porrada sonora tinha nome muito bem conhecido: Impaled Nazarene. Esses finlandeses, sobretudo o provocante do vocalista Mika Luttinen, sabem dar uma apresentação insana. Os moshs se abriram com força em pancadas como 1999: Karmageddon Warriors, Steelvagina e Armageddon Death Squad. Sem respiro, logo entraram no palco os noruegueses do 1349, uma das bandas mais aguardadas do dia pelo público. E fizeram valer a espera, pois foi um show com agressividade quase constante que transitou deste músicas mais cruas e rápidas como Riders of the Apocalypse e Blood Is the Mortar até outras mais produzidas como Through Eyes of Stone e Dødskamp (de The Infernal Pathway, 2019).

Depois de uma pausa relativamente curta, os suecos do Unleashed vieram destilar seus riffs cortantes e certeiros. Este show celebrava os 35 anos de Where No Life Dwells (1991), um clássico do som extremo sueco e um dos pioneiros a agregar temática viking. A força ao vivo de sons como To Asgaard We Fly e Before the Creation of Time ganharam o público inteiramente. Excelente show!

Agora era hora de um dos grandes nomes do “Big Four” do thrash alemão: o Destruction. E que porrada certeira foi esse show. Schmier (vocal e baixo) e seus companheiros deram uma apresentação forte e afiada, reafirmando mais um exemplo dessa ótima fase vivida pela banda, que se mostra com bastante energia. Para mim foi o ponto máximo do festival. Não atoa que o espaço onde se localizava o palco ficou lotado. O repertório foi executado com excelência e desfilou clássicos como Total Desaster, Deathrap, Bestial Invasion, Thrash Attack, Curse the Gods e faixa título de Mad Butcher.

Após um show afiadíssimo como esse do Destruction a missão de manter o nível de interesse do público alto seria difícil para a banda que viesse em seguida. Mas mesmo assim e sendo já uma madrugada de domingo para segunda, os noruegueses do Aeternus conseguiram segurar essa bronca e mantiveram um público significativo para vê-los. E com a excelente sonoridade dessa banda mesclando a atmosfera sombria do black metal com o peso e a técnica do death metal, eu encerrei muito bem minha jornada nessa primeira edição do festival. Além disso, o foco do show foi tocar o álbum Beyond the Wandering Moon (1997) na íntegra, o qual para mim é um dos melhores trabalhos da cena extrema norueguesa dos anos 90.

Portanto, o resumo da jornada me levou a concluir que essa primeira edição do Drums of War foi bem-sucedida, mostrando um festival com grande potencial de se estabelecer por várias edições a seguir. Inclusive, já está anunciada a segunda edição para 2027, nas mesmas datas ocorridas neste ano. Os nomes de destaque já confirmados são Artillery, Asphyx, Dismember, Hypocrisy, Nile, Samael, Sinister e Varathron entre os destaques anunciados até o momento.