Por Écio Souza Diniz
Este é um registro ao vivo histórico da trajetória do Rotting Christ. Mas, o que torna este CD/DVD especial? Primeiramente, o show foi gravado no Teatro Lycabettus (Lycabettus Hill Open Air Theatre), erguido no lendário Monte Lycabettus em Atenas, um local antiquíssimo ligado a mitos fundadores da capital grega e à paisagem contemplada desde a antiguidade por seus filósofos e cidadãos. Portanto, o Rotting Christ celebrar seus 35 anos de carreira naquele palco frente a milhares de pessoas não foi uma apresentação qualquer, mas sim uma honra simbólica. Segundo, o desempenho dos músicos mostra uma banda confiante, intensa e consciente do próprio legado, soando menos como um simples aniversário e mais como um ritual pesado diante de um público totalmente entregue. No quesito técnico, a gravação impressiona pela força do som encorpado, agressivo e claro o suficiente para valorizar riffs, linhas de baixo e coros sem matar a crueza, algo que muitos críticos e fãs já vinham pedindo depois de outros registros ao vivo mais irregulares.
Já o repertorio musical passeia por diferentes fases da banda com fluidez, e isso é um dos grandes trunfos desse registro ao vivo. Com uma entrada já arrebatadora com a mística e soturna Χ ξ ς' de Κατά τον δαίμονα εαυτού (Κata Τon Daimona Εaytoy, 2013), o público já demonstrava sua devoção. Na sequência, P'unchaw Kachun - Tuta Kachun do álbum citado concluí perfeitamente as honrarias do que seria aquela noite. Claro, que faixa título de Κατά τον δαίμονα εαυτού, como já esperado, também levantou os primeiros grandes moshs. Numa energia primordial unificada, a banda e público se fundem numa aura de arrepiar com a fenomenal Fire, God and Fear de The Heretics (2019), enquanto a câmera projeta uma panorâmica incrível do monte. As invocações em Ἄπαγε Σατανά (Apage Satana) de Rituals (2016) também trazem uma atmosfera única no local. Com a faixa título de Aealo (2010) os cântigos das antigas batalhas gregas ecoava por Atenas. Em King of a Stellar War de Triarchy of the Lost Lovers (1996), incentivou algumas pessoas a ascenderem uma espécie de petardo em torno do que emitia uma cor avermelhada, dando uma aura ainda mais ritualística ao show.
Os fãs mais atingos da banda foram agraciados com as execuções primorosas de The Sign of Evil Existence e Fgmenth, Thy Gift de Thy Mighty Contract (1993). Remontando aos excelentes momentos da banda na primeira década dos anos 2000, Athanati este de Sanctus Diavolos (2004) e Nemecic de Theogonia (2007) vibravam por todo o monte cantada por todos. Já caminando para o final e com jogo ganho, Grandis Spiritus Diavolos de Κata Τon Daimona Εaytoy e The Raven de The Heretics matinha o frenesi em alta em já quase duas horas de show. O encerramento com faixa título de Non Serviam (1995) com várias pessoas entrando no palco e celebrando com a banda deu a cartada final nesse evento monumental. Tudo isso acima descrito mostra que esse registro ao vivo funciona tanto como documento histórico quanto como prova de que o Rotting Christ ainda entrega shows fortes, coesos e cheios de personalidade, sem tentar se modernizar à força ou agradar quem está fora do metal extremo, o que explica a recepção positiva que costuam receber. Sem dúvida, um dos melhores e mais criativos álbuns ao vivo do metal extremo.
